Artigo
Para jurídico e compras, “qualidade do crédito” não é (apenas) um debate técnico: é risco de validação (o ativo existe e é rastreável?), risco contratual (quem responde se der problema?) e risco reputacional (o que sua empresa pode dizer sem ser contestada). Nesse contexto, os Core Carbon Principles (CCPs) do ICVCM funcionam como um piso global de integridade para o mercado voluntário, organizando o que um crédito precisa demonstrar para ser considerado “alto padrão”.
A chave prática é: você não precisa virar especialista em metodologia para filtrar risco com método. Você precisa de um “guia de leitura” que transforme integridade em perguntas objetivas, documentos mínimos e red flags.
Os CCPs são 10 princípios agrupados em três blocos: Governança, Impacto em Emissões e Impacto Sustentável. Eles cobrem desde rastreabilidade e transparência do programa até adicionalidade, permanência, quantificação robusta e ausência de dupla contagem — além de salvaguardas socioambientais e contribuição para transição ao net zero. (ICVCM)
Tradução para o comprador: CCPs viram um roteiro de “o que exigir” antes de assinar e antes de comunicar qualquer claim.
O ICVCM descreve um processo em “dois tique” para um crédito portar o CCP label:
1 - o programa (standard/registro) precisa ser CCP-Eligible; e
2 - a categoria/metodologia usada pelo projeto precisa ser CCP-Approved.
Só com os dois requisitos o crédito pode ser rotulado como CCP no registro.
Na prática, isso permite um primeiro filtro rápido: se o crédito não é CCP-labelled, ele pode até ser bom — mas você terá de aprofundar mais a diligência para justificar integridade.
Confirme se o programa é CCP-Eligible e se a informação está pública. (O ICVCM vem publicando decisões e atualizações; até dez/2025, anunciou aprovações que incluem nomes como Verra, Gold Standard, ACR, CAR, ART TREES, Puro.Earth, Isometric, entre outros.)
Não basta o programa. O crédito precisa ter origem em categoria/metodologia aprovada para portar o label. (ICVCM)
Peça (ou consulte) serial/lote, status (disponível, reservado, aposentado/cancelado), e o histórico de movimentações.
Se não houver transparência documental, o risco sobe — e o preço deveria refletir isso.
Os CCPs exigem governança efetiva, rastreamento em registro, transparência e validação/verificação independente.
O que pedir/checar:
Red flags típicos:
Aqui entram os quatro pilares que mais derrubam compra mal diligenciada: adicionalidade, permanência, quantificação robusta e ausência de dupla contagem.
O que dá para checar sem ser técnico:
Red flags típicos:
Os CCPs também exigem salvaguardas socioambientais e contribuição para a transição ao net zero (não “travar” práticas incompatíveis).
O que jurídico/compras consegue checar objetivamente:
Red flags típicos:
Uma prática que funciona bem é classificar ofertas em três níveis:
1 - Nível A — CCP-labelled (dois tique) + documentação completa
Base forte para aprovação interna e comunicação institucional.
2 - Nível B — Programa forte, mas sem CCP label para aquela categoria
Pode ser viável, mas exija diligência mais profunda + proteções contratuais mais robustas.
3 - Nível C — Baixa transparência / documentação fraca / vendedor resistente a proteções
Ou reprecifica (com risco explícito) ou evita.
Mesmo com bom padrão, juridicamente o comprador deve amarrar:
Os CCPs não substituem diligência — mas dão um padrão objetivo para você filtrar integridade com racionalidade, exigir transparência e montar uma decisão defensável. Para jurídico/compras, o ganho é transformar “qualidade do crédito” em: (i) registro e rastreabilidade, (ii) documentação mínima, (iii) contrato que aloca risco, e (iv) trilha de evidências para auditoria.
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